07 - Limites e escolhas: o que aprendemos com uma poltrona de avião
Você está assumindo o controle da sua vida ou esperando que alguém mude de lugar?
As redes sociais têm uma habilidade peculiar de transformar situações cotidianas em debates globais. Essa semana, o palco foi ocupado pela "moça do avião", que recusou ceder seu assento comprado para que uma mãe pudesse acomodar seu filho.
O que começou como uma história simples se transformou em um debate massivo. Gente de um lado defendendo a mulher, do outro chamando-a de egoísta. Mas sabe o que me chamou a atenção? Esse caso não é sobre assentos em aviões. É sobre como lidamos com as nossas responsabilidades e as expectativas que jogamos nos outros.
Vamos combinar: é mais fácil apontar o dedo e dizer que a culpa é de outra pessoa do que olhar para dentro. No caso do avião, a mãe estava diante de uma situação que pedia adaptação — talvez acalmar o filho, talvez reorganizar o espaço de outra forma. Mas, em vez disso, a escolha foi transferir o problema para a "moça da janela".
Isso não é incomum. A verdade é que transferir responsabilidades é quase um reflexo automático. Psicólogos chamam isso de externalização: ao invés de assumir o controle, buscamos um culpado ou um “salvador”. Brené Brown, uma grande referência atual para mim, destaca que a transferência de responsabilidade é um mecanismo para evitar vulnerabilidade — seja em situações pessoais, ou em cenários profissionais, como enfrentar críticas no trabalho. É mais fácil esperar que o outro ajuste sua rota do que encarar nossos próprios desafios.
Estou cansada de ver essa dinâmica evidente em ambientes corporativos. Todo mundo já trabalhou com aquela pessoa que culpa a liderança, o mercado ou até os colegas pelo seu próprio desengajamento ou falta de progresso.
Quando qualquer projeto dá errado, sem nem piscar, já começa com o discurso "Ah, mas meu líder não me dá espaço." "O cliente é muito difícil."
Para mim, essas frases poderiam facilmente ser traduzidas para: "Por favor, ajuste o mundo para que eu fique mais confortável."
Esse comportamento da mãe no avião reflete exatamente a mesma lógica que nos deparamos em diversas situações na nossa vida: esperar que o ambiente se molde para atender suas necessidades, em vez de assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento. E isso é um risco absurdo, que muitas vezes nem conseguimos enxergar.
Quanto mais eu estudo, mais eu vejo profissionais reforçando que a autorresponsabilidade é uma das principais competências das pessoas de alta performance. Quem a pratica consegue transformar obstáculos em aprendizado, porque entende que crescimento não depende de um ambiente ideal, mas de uma mentalidade madura e orientada para soluções.
Escolher enfrentar o desconforto e assumir as rédeas das situações exige maturidade. E a maturidade emocional envolve aceitar que nem tudo está sob nosso controle, mas que podemos sempre influenciar nossa reação. É esse o segredo da vida, que é simples de entender, mas não é fácil de executar.
Até aqui a reflexão foi sobre a postura da mãe que transferiu seu problema para os outros, agora, vamos pensar também sobre a moça que estava sentada na janela.
Ela acertou, não só por claramente estar com a terapia em dia, mas por ter conseguido colocar em prática uma habilidade que a gente não valoriza tanto quanto deveria: estabelecer limites.
O ser humano nasce querendo fazer parte. A gente tem uma necessidade absurda de querer “ser gostado”, e isso, em muitas situações, significa abrir mão dos nossos limites. É desse lugar que nasce a nossa dificuldade em dizer “não” - e também, de aplaudir (ou julgar, depende do lado que você ficou nessa polêmica) quem consegue.
Comecei a definir meus limites pós burnout, e, posso dar um spoiler sobre esse processo? Uma vez que você aprendi a falar “não”, o difícil se tornou falar “sim”. Hoje eu assumo que sou uma viciada em falar “não”. É bom, me sinto até mais leve, rs. Quando você tem clareza sobre o que é sua responsabilidade e o que não é, fica muito mais fácil dizer sim ou não com convicção.
Agora, calma lá. Não estou dizendo que você nunca deve ceder. Muitas vezes, ceder é necessário e até generoso. Mas aqui está o ponto de destaque: você não precisa sempre acomodar o desconforto do outro, especialmente se isso significa abrir mão de algo importante para você.
A "moça do avião" sabia exatamente onde estavam seus limites. Ela comprou a janela, escolheu aquele lugar e decidiu não ceder. Essa decisão, embora tenha gerado reações intensas, foi sobre algo que muitos de nós evitamos: bancar nossas escolhas, mesmo quando elas não agradam a todo mundo.
Então, vamos todos repetir em voz alta: nós não somos responsáveis por acomodar o desconforto de todos à nossa volta.
Poderíamos perder horas conversando sobre todas as reflexões que essa história pode gerar, mas a principal é: Que sejamos um pouco mais a moça do assento, que aprendeu a impor limites, e não a mãe, que delegou o próprio problema. Apesar de saber que, no dia a dia, a maioria de nós é o contrário.
Quantas vezes, no dia a dia, você espera que alguém ajuste o mundo ao seu redor para te acomodar? Quantas vezes você empurra para os outros responsabilidades que poderiam ser suas?
Na próxima vez que a vida te oferecer um "assento longe da janela", pergunte a si mesmo: Como posso ajustar minha rota sem depender de ninguém para me acomodar?
A autorresponsabilidade é uma estratégia de vida. Quando você assume o controle do que está ao seu alcance, cresce. Aprende. Evolui. E se aproxima cada vez mais da alta performance.
Pode ser desconfortável no início, mas te garanto: é muito mais transformador.
Beijos, até a próxima.


“Então, vamos todos repetir em voz alta: nós não somos responsáveis por acomodar o desconforto de todos à nossa volta.” - o like no post veio com esse parágrafo aqui 👏💯